segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Indigência lexical‏

Certo dia desses, resolvi ajudar a combater a "indigência lexical" do país, mas, ao melhor preço do mercado: ouvi  dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras.
Em um programa de TV, vi uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça.
O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, “indigência lexical”. Comerciante de tino que sou, não perdi tempo em ter uma idéia fantástica.
Peguei dicionário, mesa e cartolina, e sai ao mercado cavar espaço entre os camelôs.
Entre uma banca de relógios e outra de lingerie, instalei a minha mesa, o dicionário, e a cartolina na qual se lia:
- Histriônico – apenas R$ 0,50.
Demorou quase quatro horas para que o primeiro, de mais de cinqüenta curiosos, parasse e perguntasse:
- O que o senhor está vendendo?
- Palavras, meu senhor. A promoção do dia é “histriônico”, a cinqüenta centavos, como diz a placa.
- O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.
- O senhor sabe o significado de “histriônico”?
- Não.
- Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já tem ou coisas de que elas não precisem.
- Mas eu posso pegar essa palavra, de graça, no dicionário.
- O senhor tem dicionário em casa?
- Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
- O senhor estava indo à biblioteca?
- Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
- Então, veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar, para casa, uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!
- Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para, depois, esquecê-la?
- Se o senhor não comer a alface, ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora, e o feijão caruncha.
- O que pretende com  isto? Vai ficar rico vendendo palavras?
- O senhor conhece Nélida Piñon?
- Não.
- É uma escritora. Esta manhã, ela disse, na televisão, que o país sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
- E por que o senhor não vende livros?
- Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.
- E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem a barriga.
- A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado.

Olhe aquela senhora, com o carrinho de feira, dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa, ela nunca me enganou. Passou por aqui, sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto, se mordendo de curiosidade. Mas, nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga.
Suponho que, para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então, eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
- O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...
- Jactância.
- Pegar um livro velho...
- Alfarrábio.
- O senhor me interrompe!
- Profaço.
- Está me enrolando, não é?
- Tergiversando.
- Quanta lenga-lenga...
- Ambages.
- Ambages?
- Pode ser também “evasivas”.
- Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
- Pusilânime.
- O senhor é engraçadinho, não?
- Finalmente chegamos: histriônico!
- Adeus.
- Ei! Vai embora sem pagar?
- Tome seus cinqüenta centavos.
- São três reais e cinqüenta.
- Como é?
- Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só “histriônico” estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
- Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
- É que, quem leva ambages, ganha uma evasiva, entende?
- Tem troco para cinco?






Fábio Reynol é jornalista especializado em ciências e escritor.

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